O Projeto Sakura é um dos projetos mais visíveis, recentemente, no mercado dos eSports.
A iniciativa visa incentivar as mulheres para ingressar no mundo competitivo.
Conversamos com uma das idealizadoras do Projeto Sakura, Juliana Moondded de 19 anos. Confira essa entrevista e conheça mais sobre essa fantástica iniciativa!

Uailistar: Como surgiu o Projeto Sakura e quando começou?

Juliana: O Projeto Sakura tem esse nome por ser baseado nas flores de Cerejeira (Sakura em japonês é Cerejeira e a definição engloba também sua flores).
“A cerejeira é uma árvore que no inverno parece estar morta, mas por dentro está bastante viva. E na primavera ela desabrocha flores bastante belas. Então isso ilustra um pouco nosso projeto.”

O projeto surgiu como um grupo de Whatsapp para auxiliar as garotas que enfrentavam problemas nas ranqueadas de League of Legends.
Para ajudar as meninas de elo mais baixo, as que continham elo mais alto passavam dicas e as vezes faziam um papel de treinadora.

“Essa ideia surgiu pois a maioria dos homens reclamavam da qualidade das mulheres mas ao invés de ajudar com dicas, eles tentavam nos “boostar” (ajuda direta ~ jogar pela pessoa ~ ou ajuda indireta, jogar com a pessoa).
Mas não queríamos alguém subindo nossa conta, queríamos subir por esforço próprio.”

O projeto atingiu outras proporções, se transformando em um grupo para além dos jogos e isso acabou gerando um hiato. Mas, após uma das integrantes questionar a falta que o grupo fazia, as administradoras do grupo voltaram com a iniciativa, dessa vez no Twitter e “para ficar de vez” (segundo a Moondded).

Com a mesma intenção de auxiliar as mulheres no LoL, a iniciativa inicialmente priorizou a busca por duos ou por mais meninas para que todas pudessem jogar em companhia.
Mas não parou por aí, e vieram as organizações de campeonatos.

Dois campeonatos já foram organizados por elas, tendo o foco de ser para garotas e por garotas.
O terceiro tem previsão de acontecer nos dias 9 e 10 de março de 2019 e ocorrerá de modo online com auxílio da plataforma battlefly.

 Ligas femininas

Quando questionada sobre a criação de mais ligas femininas, como já existe no Counter-Strike, Juliana defende a criação dessas ligas.

“Eu sou a favor da criação de mais ligas femininas como uma porta de entrada para as mulheres. Temos muitas mulheres jogando LoL e muitas se escondem atrás de nicknames neutros para não levarem rage por apenas serem mulheres. Eu acredito que com a criação de liga feminina, as mulheres se interessarão mais por competições e perderão esse medo.”

Usando-se de exemplo, ela explica que na infância de muitas mulheres o videogame não é bem visto. Isso é justificado dando o exemplo do namorado, que tem a mesma idade que ela, que na mesma época que ela teve seu primeiro videogame o namorado já estava no quarto.

O número de mulheres jogando todos os tipos de jogos aumentou de um tempo para cá e elas são a maioria entre os brasileiros.

Com isso a criação de ligas e a inserção delas no meio competitivo poderá ser benéfico para as mesmas.

“A criação de campeonatos femininos não só ajuda a incentivar as mulheres a competir, como também as permite competir de maneira sadia e “livre de rage”.”-Moondded
“Isso poderia auxiliar na diminuição do machismo da comunidade, pois poderia mostrar para os garotos que não queremos tomar o lugar deles e sim conquistar o nosso espaço. E não significa necessariamente uma dominância de nós sobre eles.” -Complementa a entrevistada.

Ainda no contexto de ligas femininas, a Vaevictis eSports lançou para a disputa da LCL um time totalmente feminino. Ela espera que as meninas joguem bem o suficiente para não terminar na última colocação.
A época da entrevista, o campeonato estava para iniciar neste sábado (16) e já tivemos dois jogos e a equipe perdeu as duas primeiras partidas.

Ela considera que a liga feminina seja uma espécie de academy e que possibilite as mulheres se especializar não somente no jogo e sim em competições em geral.

 

Machismo nos jogos

Quando questionada sobre o machismo, perguntei se ela acreditava que muitas das vezes o machismo ocorreria por falta de maturidade ou algo similar.
Ela diz que não acredita muito nesse argumento de que uma pessoa cometeu machismo por ser adolescente.

“É muito mais comum espera uma atitude machista de um homem mais velho, de 50 anos por exemplo. E a minha geração vêm sendo ensinada o quanto é errado o machismo. E apesar de termos adolescentes machistas, muitos não são.”

Ainda nesta questão ela fala que às vezes atribuem este machismo para uma determinada faixa etária como desculpa para esta ação.

“Ele normalmente não é assim, só está sendo machista por causa da idade.”-cita.

Ela apoia as mulheres usarem mais nicknames femininos como -também- uma forma de combater o machismo.

“O jeito de fugir do machismo não é fugir e sim combater…
…(A mulher) Usar nick neutro impede do cara ser machista com a mulher naquela partida, mas não impede ele de ser machista com outra menina que usa o nick feminino. Ele vai sair impune. É a mesma coisa que você impedir a mulher de sair na rua com qualquer roupa por causa do assédio e do estupro.
A vítima não tem que abrir mão de algo que faz bem para ela por causa de um medo, de uma pessoa que vai agredir.”  
“Por que a gente não combate quem realmente está fazendo mal para o outro, ao invés de mandar a vítima se proteger?”

Quando questionada se ela mesma havia sofrido algum tipo de assédio, ela respondeu que sim e deu um exemplo de um episódio que aconteceu quando ela estava jogando Fortnite. O jogo permite que você tenha chat por voz com seu esquadrão na partida.

Neste episódio, ela conta que um jogador ao descobrir que ela é mulher ficou mandando ela calar a boca. Outro episódio de assédio, foi enquanto ela fazia uma stream e um dos viewers a tratou com desrespeito numa “tentativa” de elogiar a aparência.

Ela relata também que já ofereceram boost na conta dela em troca de fotos com nudez explícita. Isto afetou o desempenho dela durante o dia, tanto no jogo quanto na vida fora do jogo.

Parcerias

Perguntada sobre possíveis parcerias, seja com a Riot Games (produtora do LoL) ou outros parceiros, ela dá uma resposta “pé no chão” e diz que com a Riot ainda é bastante difícil a parceria, mas não é impossível. Ela ainda procura meios de conversar com a empresa para tal feito.

Mas o Projeto Sakura fez parcerias com a Team Innova e com a Mix Femme.
Na entrevista ela diz que não pode revelar muito sobre a parceria com a equipe Team Innova, mas que teríamos “novidades em breve”.
A parceria com o Mix Femme visa também dar visibilidade feminina ao CS:GO. O projeto estava em hiato e foi retomado com esta parceria entre as iniciativas.

Como o Projeto Sakura é sem fins lucrativos, elas ainda não pensam em montar um time usando a tag do projeto. Isso porque a Moondded pensa que elas não têm a infraestrutura adequada para profissionalizar as equipes e fazer as jogadoras viverem somente do eSports.

 

Representatividade

Perguntada sobre o protagonismo atual de mulheres no eSports, como a streamer Thaiga que foi convidada para analisar a Superliga ABCDE, as apresentadoras NyviTawna (além da Camilota) e a tradutora do Flamengo eSports Ga Kim, ela se diz bastante contente com essa representatividade.

“A Ga é uma peça importante para o time do Flamengo pois é ela quem auxilia na comunicação do time e a comunicação em um jogo de equipe é importante para um time chegar à vitória”.

Ela ainda fala que quando a Kabum foi ao mundial em 2014 ela se sentiu bem feliz com o primeiro time brasileiro indo ao Mundial de LoL.  Porém ela sonhava que poderia ter uma garota lá e que ela poderia ser essa garota.  Mas a falta de incentivo e a falta de personalidades mulheres na época, como jogadoras, a fez “desistir”.
Entretanto, ela optou em ajudar as mulheres neste sonho de virar pro-player e trabalhar com eSports em geral.

Questionada também sobre o que ela pensava sobre as ações dos times de apoio às mulheres, como a INTZ colocando uma tag com os dizeres #JogoÉCoisaDeMenina, ela disse ser totalmente favorável à este tipo de ação. Segundo ela, as equipes tendo essa atitude atrai mais meninas para as competições e para a torcida dos eSports em geral.

A INTZ recentemente, dias após a realização da entrevista, contratou um time feminino de CS:GO. O time é composto por Jessica “fly” Pellegrini, Cláudia “Santininha” Santini, Juliana “ujliana” Scaglioni, Gabriela “gabee” Velasco, Aline “lininhA” Avancini e o coach Felipe “Guse” Guse.

Futuro

Encerramos a entrevista falando um pouco mais sobre a vida pessoal da Juliana. Ela revela que o Projeto Sakura não foi um “plano a” e não esperava tomar a repercussão que teve. Como dito anteriormente, a intenção era apenas para dar apoio para as mulheres no casual e depois de um tempo que tornou-se a iniciativa que é hoje.

Juliana é formada técnico em Controle Ambiental pela IFRJ e cursará  Ciências Ambientais pela UniRio.

Para conhecer um pouco mais sobre o Projeto Sakura acesse este link.

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